Sobre liturgia anglicana


LITURGIA ANGLICANA É VIDA QUE SE FAZ

 Por Prof. Pós-Dr. Marcelo Martins Barreira
Comunidade Bom Pastor – Vitória/ES

A liturgia é um “serviço do povo” (de láos, povo, com érgein, trabalho, obra, ofício) a Deus que renova a ação pascal para esse povo. Tal étimo indica o contrasenso de se monopolizar a elaboração litúrgica nas mãos de especialistas ou de uma equipe separada da assembléia eclesial (MARASCHIN, 1996, p. 50): Na verdade, a renovação litúrgica não se faz em escritórios ou em salas de reunião, sob a direção de especialistas. A renovação litúrgica só pode vir do povo reunido em adoração, na busca de sua própria expressão e identidade, para o louvor autêntico e para o testemunho evangélico comprometido com as lutas de nossa gente (MARASCHIN, 1996, p. 54).

A liturgia é uma expressão oficial de louvor a Deus de toda a Igreja. O termo “comum” do Livro de Oração Comum evoca a entrega ao povo da Igreja, clérigos e leigos, o mesmo e um só livro (TAKATSU, 2003, p. 3). Essa “política do comum” do arcebispo Cranmer e de sua comissão sublinha o protagonismo da comunidade eclesial em comunhão com o jus liturgicum da autoridade episcopal — não prescindindo de uma escuta dos especialistas para que o povo, afinal, entendesse, do lado de cá, o que eles, os especialistas, entendem do lado de lá (MARASCHIN, 1996, p. 61). Afinal, a palavra “liturgia” compreende a Igreja em seu todo, seja em seus elementos constitutivos, seja nas pessoas que dela participam (TAKATSU, 2003, p. 1).

O agir simbólico, portanto, além de participativo, deve estar em sintonia com as pesquisas antropológicas, filosóficas e teológicas (TAKATSU, 2003, p. 18). O rito reatualiza o mito ao reviver sua realidade e significância existencial. No dizer de Junito Brandão, o rito é a práxis do mito. É o mito em ação. O rito rememora, o rito comemora (1997, p. 39). Para que essa reatualização aconteça, não basta um esforço adaptativo a um universo cultural, como ao da cristandade medieval. Caberia uma valorização das várias sensibilidades — popular; rural; urbana; técnico-científica — para dar um novo e eficaz sentido existencial e histórico ao mistério cristão numa dupla ênfase da novidade espiritual, de acordo com a ponderação de Maraschin: Renovação é reeditar o novo ou, em outras palavras, “fazer o novo de novo”. Nesse caso, não se pode colocar remendo de pano novo em tecido velho nem vinho novo, em odres velhos (1996, p. 57).

Um exemplo desse fazer de novo o novo teria sido o processo de construção litúrgica da Reforma Anglicana. O Livro de Oração Comum teve não só influência luterana e calvinista, mas também das tradições romana e ortodoxa. Numa síntese criativa de elementos das diversas tradições cristãs delinearam-se os traços da liturgia anglicana: a reverência crítica perante a tradição; a devolução da liturgia e das Escrituras ao povo com o uso do vernáculo e a inculturação (TAKATSU, 2003; MARASCHIN, 1996, p. 47-49).

Em síntese: a liturgia cristã, como a do LOC, traduz e reatualiza em novos contextos, sob forma ritual, o “arquétipo neotestamentário”, em conformidade com o que anuncia o kerygma e a revelação de Deus — em sintonia com a célebre fórmula latina lex orandi, lex credendi. Ora, o kerygma não é uma definição metafísica, e sim uma vivência simbólica que se renova em cada ato litúrgico, em especial na celebração eucarística. O mito (em nosso caso, o cristão) é, devido à sua contínua atualidade, a base estrutural de uma comunidade que se confessa cristã, conferindo-lhe identidade por essa mesma confissão. Assim, somente ao se voltar de modo novo e atual às suas origens míticas por uma nova comemoração ritual, torna-se possível referendar e, principalmente, viver uma liturgia, de fato, em sintonia com os desafios que a vida e o mundo colocam ao cristão ao longo da história.

Referências:
BRANDÃO, J. de S. Mitologia Grega - Volume 1. Petrópolis: Vozes, 1997.
MARASCHIN, J. C. A beleza da santidade: Ensaios de Liturgia. São Paulo/São Bernardo do Campo: ASTE e Ciências da Igreja, 1996.
TAKATSU, S. Breve História da Liturgia Anglicana (de 1549 a 1995). Revista Inclusividade, v. 2, p. 1-21, 2003. Disponível em:
http://www.centroestudosanglicanos.com.br/rev/6/breve_historia.pdf. Acesso em: 27-01-2009